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Filme sobre o presente e a memória de Fordlândia, uma company town fundada por Henry Ford na floresta amazónica em 1928, para escapar ao monopólio britânico da borracha. Hoje, o que permanece das construções atesta a escala do fracasso deste empreendimento neo-colonialista que durou menos de uma década.

Filme sobre o presente e a memória de Fordlândia, uma company town fundada por Henry Ford na floresta amazónica em 1928, para escapar ao monopólio britânico da borracha. Hoje, o que permanece das construções atesta a escala do fracasso deste empreendimento neo-colonialista que durou menos de uma década.
FORDLÂNDIA MALAISE um filme de SUSANA DE SOUSA DIAS. 2019, PT, 40 min


Texto por Joana de Sousa

Henry Ford, fundador da marca com o seu nome, tinha uma visão utópica de futuro. Para ele, nesse amanhã risonho e próspero, a indústria e a vida de cada indivíduo estariam totalmente integradas uma na outra. Os operários trabalhariam nas fábricas, com salários altos e horários de oito horas por dia, tendo tempo livre e poder económico suficiente para consumirem os produtos que produzissem, assim alimentando a própria indústria onde trabalhavam. Estes operários seriam liderados por pessoas com visão, que oferecessem uma resposta integrada para todas as suas necessidades, deixando-os livres para trabalharem e consumirem. Para Ford, não havia nada que não pudesse ser moldado pelo trabalho e vontade humanas. Inclusive o próprio ser humano.

Em 1926, a Companhia Ford Industrial do Brasil começou a construção do projecto que viria a ser chamado de Fordlândia. Este iniciou-se pois Ford precisava de criar um centro de produção de látex para fornecer as suas fábricas de pneus nos EUA. Foi construída uma cidade, de traços norte-americanos, no meio da selva amazónica. Para além do complexo de extração e fabricação de látex, Ford providenciou todas as infraestruturas necessárias para que os seus trabalhadores norte-americanos tivessem uma vida cheia e feliz dentro do seu ideal de sociedade. Aquele corpo estranho foi implantado na paisagem com aparente eficiência e rapidez. De tal forma, que o projecto foi tomado como exemplo por capitalistas e industrialistas.

Mas, na verdade, desde o começo que o corpo estranho encontrou resistência. Os gerentes norte-americanos não estavam preparados para o clima amazónico, vários sucumbiram à febre amarela e à malária. Os fracos conhecimentos de agricultura tropical fizeram com que os campos plantados de seringueiras fossem duramente afectados por pragas e outros problemas. Os camponeses brasileiros eram obrigados a um duro regime de trabalho e a consumir comida e outros produtos tipicamente norte-americanos, que não eram bem aceites. Álcool, mulheres, tabaco e jogos de futebol foram proibidos e os trabalhadores criaram um refúgio nos limites da cidade, chamado “Ilha da Inocência”, com bares, discotecas e bordéis. Depois de assumirem o insucesso do projecto, a companhia Ford vendeu a cidade ao Estado brasileiro em 1945. Fordlândia, então abandonada por quem a criou mas com infraestruturas ainda em boas condições, é ocupada por alguns habitantes das localidades vizinhas.

Fordlândia Malaise surge de um convite a Susana de Sousa Dias para participar numa residência artística organizada pelo colectivo Suspended Spaces, cujo nome reflecte o seu foco de interesse: o pensamento e a criação sobre aquilo a que chamam “espaços suspensos”, que não cumpriram a função para a qual foram edificados ou construídos. Fordlândia, sufocada pelo fracasso de uma utopia extrativista, é vista com um recurso esgotado, uma cidade fantasma. Mas o que Susana de Sousa Dias encontra é, na verdade, uma paisagem interpretada por diferentes narrativas. Ali, há outros sonhos de futuro. Mas, afinal, quais são os sonhadores a que a História tem dado mais importância?

Na tensão entre passados e futuros plurais, Susana de Sousa Dias desconstrói o filme etnográfico ao provocar uma mutação dos arquivos, da ordenação e da hierarquia para o caos energético e ritual estroboscópico. Um olho que tão depressa é máquina como beija-flor, dá-nos a ver aquele lugar onde vozes nos falam sobre as utopias que lá foram nascendo e morrendo. Um lugar amaldiçoado por uma mulher violentada, que é a própria Natureza. Mas o corpo estranho, eficiente e arrogante, é expulso pela própria ferida que abre. Em Fordlândia Malaise, há o futuro que nasce do apocalipse e o arquivo que se mistura com reza, que se confunde com fantasma, que se transforma em forró.

“Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.”

Escrito por Ailton Krenak (ambientalista, jornalista, educador, escritor e liderança indígena do povo Krenak), no livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, editado pela Companhia das Letras em 2020.



Canção “Mãe-Terra”, cantada por Júnior Brito.
Produzida pela Agremiação Folclórica de Fordlândia, 2021.




realização, fotografia e montagem SUSANA DE SOUSA DIAS som ANTÓNIO DE SOUSA DIAS, SUSANA DE SOUSA DIAS mistura de som PEDRO GÓIS produção ANSGAR SCHAEFER / KINTOP
ORDLÂNDIA MALAISE de Susana Sousa Dias ︎ 26 JANEIRO — 14 FEVEREIRO ︎ FORDLÂNDIA MALAISE de Susana Sousa Dias ︎ 26 JANEIRO — 14 FEVEREIRO ︎ FORDLÂNDIA MALAISE de Susana Sousa Dias ︎ 26 JANEIRO — 14 FEVEREIRO ︎ FORDLÂNDIA MALAISE de Susana Sousa Dias ︎ 26 JANEIRO — 14 FEVEREIRO ︎ F