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A CASA E OS CÃES 2019, PT, 62 min


um filme de MADALENA FRAGOSO e MARGARIDA MENESES 

Durante 5 anos, sete amigos filmaram as suas vidas, em conjunto e separados. Um filme começa a surgir quando este arquivo é revisitado; a casa que partilharam durante um ano já não existe. Um filme feito a várias mãos, uma reflexão sobre o despertar de um olhar em conjunto.



Texto por Maria Reis

Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam
Os dias lentos.

Haiku japonês traduzido por Herberto Helder.

Faz-se arte, faz-se música, fazem-se filmes. Escrevemos poemas e mensagens. Fotografamos os outros e nós próprios. Saímos à noite ou ficamos em casa. Começamos um livro ou almoçamos com o pai. As viagens de intercidades. Vinho tinto e amber leaf. Outras coisas.
É tudo descritível. Mas para contemplar é preciso atenção. E sensibilidade.
O filme podia ser uma catarse emocional, a nostalgia do que foi e já não é. Podia ser um retrato de Lisboa, dos dias de hoje. Podia dizer que é uma ode à intimidade. No fundo é um épico minimal, como um arranjo de flores, ou um puzzle afectivo, um ensaio de admiração a nós e que ao mesmo tempo, não nos pertence.
Esta proposta ambiciosa e impossível da Margarida Meneses e da Madalena Fragoso, de se filmarem a elas próprias, os amigos colegas de casa e os cães e tornar o mundano num poema, numa paisagem emocional da amizade – a família escolhida – é, para mim, um milagre.
O Luiz Pacheco, na ‘Comunidade’, fala da cama onde dormiam todos, mulher e muitos filhos, e chama-a de cama-jangada. Neste filme há a ideia de casa-ilha – “O prédio é alto como uma ilha”. Há um sentimento de grupo secreto, de aliados na vida, cúmplices dos sucessos e fracassos garantidos uns dos outros. O que fica por dizer ou o que não precisas de falar.
É tudo feito com delicadeza e respeito pela coragem que há em te expores a ti e aos teus como modo de estar na vida para dar à luz o quadro – o retrato melódico da passagem dos dias. Fala-se de filosofia com perspectivas de prédios e de espiritualidade na casa de férias a ver Pocahontas. O processo de montagem deste filme é, de facto, o grande herói que possibilita esta narrativa solta e usa o ritmo da consciência e do day dreaming.
Tinha perguntas para lhes fazer para perceber melhor a voz da Margarida e da Madalena. Gentilmente me responderam.


Maria Reis: De que forma, formal e/ou abstracta, é que pensam neste filme como um trabalho de dupla?” e “Sendo que o filme, na sua origem, era apenas uma série de registos da vossa vida íntima, como e quando (se foi enquanto filmaram, ou quando estavam revendo os vídeos) pensaram ‘está aqui uma cena especial que pode ir para além de nós’?”


Madalena Fragoso: Este filme foi tendo várias formas ao longo dos anos e sinto que passámos pelo espectro inteiro de emoções e possibilidades ao pensar nele e ao construí-lo, sendo que raramente pensámos nele enquanto um filme ou um objecto fechado que podia acabar e dizer-se que já está feito, muito menos que podia ir para além de nós (...) Construir algo com estas imagens foi algo que esteve sempre presente, mesmo que inconscientemente por isso este arquivo nunca iria ficar perdido à partida, mas nunca soubemos o que eram estas imagens. Sentimos que existia algo de muito comovente nelas que nos faziam rir sempre da mesma forma, por muito que as revíssemos e repetíssemos ou ficar tristes sempre da mesma forma, com a mesma ou mais intensidade, ao mesmo tempo que descobríamos sempre alguma coisa nova nelas. E foi mesmo incrível rever planos milhares de vezes e de repente só passados 2 anos ou 4 anos ou uns meses repararmos que alguém dizia uma coisa baixinho que mudava a nossa perspectiva sobre aquele momento ou um detalhe desfocado lhe que conferia outro significado ou levantava uma nova questão, como se as mesmas imagens se estivessem sempre a reinventar. Passámos 5 anos num modo quase esquizofrénico a rever e a pensar nas nossas memórias e nos momentos que ali estavam gravados e com esse tempo os momentos iam mudando e as nossas memórias também e aquilo que sentíamos que fazia sentido construir também. Sobre este filme ser um trabalho de dupla, acho que numa fase inicial e ao longo da maior parte do tempo, vimo-lo e sentimo-lo enquanto um filme que retrata um olhar conjunto que nos pertence a todos, a nós e a eles e não só a nós as duas. Isso ainda se mantém, mas acho que só agora estamos a conseguir processar o quanto esta é a nossa visão das coisas, a nossa visão sobre eles e sobre a amizade, os cães, o cinema, a cidade, tudo. (...) Eu e a Margarida conhecemo-nos quando entrámos na escola de cinema em 2010. Há 9 anos que estamos mais uma com a outra do que com qualquer outra pessoa nas nossas vidas e é uma cena mesmo orgânica, quase como se fossemos irmãs um bocado sem precisar de falar para nos entendermos. Às vezes podemos passar 20 minutos em silêncio e de repente dizemos a mesma coisa ao mesmo tempo como se estivéssemos estado a pensar sobre as mesmas coisas pela mesma ordem durante 20 minutos, é quinado e engraçado. Nesse sentido, acho que só conseguiríamos ter feito este filme e pensar sobre estas imagens em conjunto e nunca sozinhas. Somos pessoas diferentes com rotinas e formas de nos relacionarmos com os outros também muito diferentes, mas juntas complementamo-nos de uma forma muito especial. No final de qualquer conversa, invariavelmente, a única coisa que prevalece é um encontro de pensamentos que leva à superação da individualidade ou a uma transcendência não espiritual nem mística, mas de duas pessoas que se conhecem muito bem e que se querem muito bem acima de qualquer outra coisa. Somos também as únicas raparigas neste grupo, que eu acho que não é uma cena que vale a pena mencionar como sendo determinante, mas é interessante pensar nisso. Nostalgicamente e muito certeiramente, como a Margarida escreveu numa nota de intenções para um documento sobre o filme: ‘O que aconteceu naquela casa foi o despertar de um olhar que para cada um de nós tomou formas e proporções diferentes, mas, de alguma forma, iremos viver para sempre naquela casa a olhar por aquela janela.’.


realização MADALENA FRAGOSO E MARGARIDA MENESES fotografia DAVID LEAL, GONÇALO MATA, FLÁVIO GONÇALVES, FRANCISCO SOARES, MADALENA FRAGOSO, MARGARIDA MENESES, PAULO DINIS som JOÃO POLIDO GOMES montagem MADALENA FRAGOSO E MARGARIDA MENESES correcção de cor AFONSO MOTA produção MADALENA FRAGOSO E MARGARIDA MENESES elenco DAVID LEAL, GONÇALO MATA, FLÁVIO GONÇALVES, FRANCISCO SOARES, MADALENA FRAGOSO, MARGARIDA MENESES, PAULO DINIS, EMA, FAÍSCA, SIMBA