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DEPTH WISH 2021, PT, 11 min


um filme de Margarida Albino

Na tentativa de tentar escapar a todo o fluxo a que é exposta, M vai em busca de um lugar - o mar e seus seres - que a deixe libertar de um tempo e se possa dar ao prazer, mas é constantemente contagiada por fenómenos que a atingem e alteram a sua percepção.



texto por Horácio Boavida


1. a mulher e o mar

um filme que se podia chamar

a mulher e o mar

flashes de luz

flashes de mar

mergulhar no mar

água mar

amar o mar

um fato-de-banho azul

da cor do mar

que luz é essa que brilha

no fundo do mar

e que nos faz olhar

escutar o mar

amar nadar

à beira-mar

e ser um corpo

feito de água

feito de mar

corpo azul

como o azul que brilha

no azul do fundo

do fundo do mar


2. descobrir o corpo, descobrir o mundo

um filme que se podia chamar: descobrir o corpo, descobrir o mundo.

um corpo descobre-se como corpo, mas um corpo só se descobre justaposto aos outros corpos, às outras formas de matéria, aos outros modos de existência.

boiar na água, gatinhar nas rochas, tocar no ouriço e na estrela do mar. sentir a luz do sol que nos queima o rosto ou o sal que cristaliza no granulado de areia de que se reveste a nossa pele.

o corpo descobre-se então na descoberta do mundo, porque o corpo não existe à parte, nem à frente, nem atrás, nem acima do próprio mundo.

o corpo dá-se como imagem do corpo, tal como o mundo se dá como imagem do mundo. as imagens embatem umas nas outras, fundem-se, devoram-se, queimam- se, dançam e nadam umas com as outras.



há filmes que são sobre esta descoberta, sobre as pequenas descobertas das mais pequenas imensidões do mundo.

ir à praia, passear no bosque, fitar a linha do horizonte, parar durante um instante para escutar todos os pequenos ruídos da cidade que ainda há pouco pareciam um único fluxo indiscernível, isolando-os um a um, como na praia as crianças brincam separando a areia grão a grão.

parar para quê?, perguntam aquelxs que têm sempre pressa.

para contemplar, para tornar a contemplação numa forma de acção. a equivalência entre a contemplação e a passividade é falsa. aquelx que contempla também age, mas age tão lentamente que parece não se mexer. porque a verdade é que há acções que para acontecerem têm de acontecer devagarinho. quase como se estivéssemos paradxs.

e é assim que, por vezes, quando paramos, conseguimos sair um pouco de nós mesmxs. sair para depois regressar e nesse regresso nos descobrirmos com mais força.

um parar que é relativo, claro. porque estamos sempre em movimento. estar paradx é ainda caminhar para algum sítio.

um parar que significa então:

sair das grandes cruzadas, das grandes narrativas, dos grandes desejos: dinheiro trabalho sucesso amor etcetera. sair da jornada épica das nossas vidas. sair do ego, desse eu gigantesco que em nós habita e que nos impede de ver as outras coisas do mundo que dançam e que riem e que nadam à nossa volta.

o ego como essa grande imagem – sisuda, arrogante, patética – que construímos de nós mesmxs.

quem sabe dizer o que é o ego quando se deita sobre a areia da praia a ouvir o som reconfortante do mar, ao fundo, mas tão próximo, como se o seu murmúrio nos lambesse as orelhas devagarinho? de repente já não sabemos distinguir-nos nem do sol, nem do mar, nem da areia... tudo nos toca com uma tal intensidade que nos libertamos do sentimento de ser eu.

Play

o cinema ajuda-nos a parar. o cinema ajuda-nos a parar e a sair de nós mesmxs.

1 minuto, 10 minutos, 100 minutos. pouco importa o tempo, ou melhor, pouco importa o tempo enquanto duração precisa, isto é, enquanto tempo contado, cronometrado, milimetricamente delimitado.

o tempo tem outras formas de ser tempo e o cinema, melhor que ninguém, é capaz de criar o seu próprio tempo.

e nesse tempo inventado aprendemos a sair do tempo, tal como aprendemos a sair do mundo, tal como aprendemos a sair do eu. e é assim que por uns instantes saímos desse mundo onde toda a gente corre e onde toda a gente age com muita

certeza porque toda a gente já sabe todas as coisas que é suposto saberem (claro que tudo isto não passa de uma grande mentira, mas ai de quem ouse mostrar ao mundo a sua mais genuína fragilidade).

que mundo chato, esse!

mundo dxs adultxs, mundo do trabalho, mundo cheio de gente que (acha que) já sabe tudo. e que por isso não tem nada para nos dizer. ou para nos mostrar. ou para nos ensinar a ver.

o cinema pode ajudar-nos a sair desse lugar. o cinema pode instaurar uma nova ordem da percepção.

se ninguém nasce ensinado, então o olhar é também ele uma aprendizagem – como tudo o resto. e o cinema é uma técnica – ou uma máquina de visão – que nos ajuda nessa viagem de aprender a ver. tal como um par de óculos, ou um telescópio, ou uma máquina de raios x. mas o cinema é mais poderoso que tudo isso.

os filmes ajudam-nos a ver, redimensionando o próprio real, mostrando-nos coisas que dantes não estavam lá. por vezes, pequenas coisas, tão pequenas que quase lhes poderíamos chamar invisíveis e que sem esses filmes que vamos vendo ao longo da nossa vida nunca chegaríamos a saber ver. não é que essas coisas estivessem lá à espera de ser vistas (como no sistema de representação clássico), é sim que quando as vemos elas passam, verdadeiramente, a existir.

o cinema dá a ver, é certo, mas apenas na medida em que dar a ver é também dar à existência. ver é um acto produtivo e o cinema é um acto de criação: faz nascer o mar e o sol, a areia e o vento, a água e a pedra. e é por isso que nunca ninguém vê da mesma maneira, porque as coisas são diferentes para quem de maneira diferente as aprende a ver. há filmes que são como pequenos milagres. porque fazem estas coisas que achamos serem tão velhas como o mundo (a rocha, o sol, o mar) serem vistas como se pela primeira vez.



é porque ainda não tinham sido vistas. não desta forma, pelo menos. nenhuma imagem é igual a outra imagem e o olho e a câmara andam de mãos dadas para juntas aprenderem a reinventar o mundo.

é por isso que em depth wish a estilização – por exemplo: o psicadelismo do design de som, os jump cuts, o trabalho sobre a qualidade matérica, e em vias de desintegração, da própria película – torna o que poderia ser o mais “naturalista” dos décors numa paisagem alienígena de ficção científica. o espaço-tempo – o mundo – são transfigurados, mas apenas no sentido em que a nossa própria experiência do mundo já é composta por uma sucessão mais ou menos aleatória de transfigurações (ou poderíamos chamar-lhes: alucinações) que vêm depois, com o tempo, a ser normalizadas. o olhar de uma criança que resiste à normalização da vida adulta é um olhar onde a alucinação pode desenvolver toda a sua potência sem constrangimentos, onde a própria alucinação se torna numa aprendizagem, num mecanismo exploratório. é um olhar onde nada se apresenta como normal, racional ou lógico, porque tanto a natureza biológica como a natureza humana perderam o seu fundamento, ou seja, a sua qualidade “essencial”. o discurso do “isto é” transforma-se numa sucessão de “e isto e isto e isto” – o que neste filme é absolutamente claro: de facto, as cenas sucedem-se umas às outras de forma quase aleatória ou acidental, purgadas da necessidade de um discurso onto- narrativo fechado e linear que funcionasse como uma espécie de síntese (o desejo em si mesmo – em toda a sua profundeza – nunca será explicado...). a estilização nunca é apenas uma mera deformação, mas sim o assumir das potencialidades mais radicais da percepção subjectiva – ou alucinatória – em rotura com os modelos dominantes da objectividade e da convenção (chamemos-lhes, para simplificar, o “realismo”).

Play2

ora, o corpo-personagem que neste filme vagueia pela beira-mar é como se fosse esse outro corpo-espectador que vê as próprias imagens do filme e que por elas deambula de forma incerta, tudo olhando e escutando como se pela primeira vez. ambos os corpos são espectadorxs, mas espectadorxs activxs (actores, actrizes?) que vão aprendendo a ver a cada nova imagem que surge como um flash inesperado de luz. ambxs, personagem e espectadorx, vão aprendendo a tactear a água, as rochas e os pequenos seres trazidos à tona desse luminoso ecossistema feito de pequenos, mas profundos desejos. o olhar é aqui uma coisa puramente táctil, não existe desligado do corpo e da relação que esse corpo enfrenta a cada instante com o mundo. por isso o olhar conduz a mão e a mão conduz-nos ao mundo, mas apenas para que o mundo nos conduza de volta a nós. a cada olhar, a cada toque, uma nova descoberta: não sabemos, pois, o que esperar a cada momento, a cada nova pulsão de luz e a cada nova explosão de som. acabou-se a história – a história com h grande, pelo menos. entrámos numa outra dimensão, pessoal, onírica, intimista, onde cada imagem do mundo tem a sua própria estória para nos contar, uma estória que deve ser contada devagarinho e em surdina, sob o risco de desaparecer para sempre no fundo do mar.



estamos, pois, num outro plano da percepção, num outro plano do afecto, num outro plano da cognição – em que, por exemplo, o pequeno e o grande se misturam. falar em “sensorial” apenas (como se as sensações pertencessem a uma categoria “menor” e auto-explicativa) seria esquecer que as sensações se ligam à cognição e que nos ajudam a reenquadrar o mundo e os seus conceitos.

afinal, a disjunção entre o pensar e o sentir é apenas uma reprodução de todos os outros cortes binários: entre homem e mulher, entre adultx e criança, entre humano e animal, entre cultura e natureza, entre o eu e o mundo.

este filme insere-se nessa linhagem de um cinema simultaneamente cósmico e microscópico (e um por causa do outro) que nos ensina a amar as pequenas coisas, ligando a nossa existência à delas: ao voo de uma abelha, ao silvar do vento, ao toque macio da chuva.

e, claro, a toda a inóspita beleza do mar.

esse mar que em toda a sua sublime imensidão é afinal composto de pequenas coisas, de pequenos seres, de pequenos mundos como aqueles que em criança exploramos por entre as rochas, nas piscinas de água e à beira-mar.



Play3

esta aprendizagem das pequenas coisas (esta atenção que a elas é dedicada) parece comportar em si qualquer coisa de lúdico, qualquer coisa que nos reencaminha para um devir-criança. precisamente porque nos faz sair desse outro mundo, sério, adulto, sempre com pressa e sempre com razão, desse mundo chato que é o nosso mundo durante a maior parte da nossa vida.

este filme é como a brincadeira de uma criança, porque as crianças são aquelas que ainda não aprenderam a olhar e a escutar como xs adultxs dizem que se deve olhar, como xs adultxs dizem que se deve escutar. são aquelas que ainda detêm em si mesmas a força alucinatória da liberdade. e, de facto, as crianças sabem ver coisas de que xs adultxs não são capazes.

o cinema pode, afinal, ser como o olhar de uma criança, como o escutar de uma criança, como o desejar de uma criança. sobre aprender a brincar com as pequenas coisas do mundo e a senti-las e a sentir o próprio corpo enredado nos outros corpos, nas outras formas de matéria, nos outros modos de existência.

sobre descobrir que o nosso próprio corpo é, afinal, parte dos outros corpos e, por isso mesmo, parte do próprio mundo – que coisa tão simples e tão bonita, mas há tanta gente que não sabe isto...

porque tudo isto se demarca, e bem, do que nos pregam os grandes delírios do pensamento branco e ocidental que nos tem ensinado a instrumentalizar o mundo, precisamente porque nos diz que o eu se situa acima de tudo o resto (e há tantos filmes que não fazem senão vincar a todo o custo esta ideia nas nossas mentes). lutar contra um tal delírio do ego é, pois, uma coisa maravilhosa, um verdadeiro projecto de resistência, ainda que não tenha de ser bradado aos sete céus.

será talvez neste gesto de descoberta das pequenas coisas do mundo, e da sua incalculável beleza, que nos poderemos, enfim, salvar dessas outras grandes monstruosidades que ao longo dos séculos pusemos em marcha: do ser-se adultx, do ser-se homem, do ser-se eternamente chato e produtivo e racional, do ser-se um instrumento de dominação dxs outrxs e do próprio mundo. a salvação – ou, pelo menos, a possibilidade de resistência – está, sem dúvida, nos pequenos filmes. sendo que a “pequenez” aqui nada tem a ver com a duração precisa ou com uma pretensa qualidade estética, mas sim com uma coisa bem mais simples e difícil ao mesmo tempo: para onde, quando e como aprendemos a direccionar os nossos olhos – ou os nossos ouvidos – ou as nossas mãos.

Play4

justamente, o cinema tem o dom de nos ensinar que os filmes poderiam ser “apenas” sobre essas pequenas coisas que vamos descobrindo no dia-a-dia, sobre as pequenas percepções, sobre os pequenos afectos, sobre as pequenas cognições. sobre tudo aquilo que geralmente não vemos porque não estamos treinados para ver, ou porque estamos com pressa, ou porque achamos que não importa, ou porque nos disseram que é assim que deve ser.

mundo chato, esse, x dxs adultxs!

cinema chato, esse...

e, por vezes, mesmo perigoso.

cinema – esse que prolifera nas salas dos multiplex e nos canais de televisão – que não nos faz parar e sair de nós mesmxs, sair da fantasia do ego e da sua racionalidade técnica e industrial que nos coloca sempre acima do próprio mundo e dxs outrxs – e nunca no coração do próprio mundo.

cinema dos heróis e das heroínas e daquelxs que devem vencer a todo o custo.

quando é certo que um filme poderia ser apenas sobre isto: sobre um corpo que descobre o seu próprio corpo ao descobrir os outros corpos, ao descobrir os outros mundos que existem em redor e no interior do próprio mundo.

sobre um corpo que aprende a tocar no mar e na rocha como tocaria em si mesmo. e que aprende a amar o mar e a rocha como se amaria a si mesmo.


depth wish: um filme cósmico, portanto, e sobre esse desejo mais profundo que todos os outros: o desejo de sentir, o desejo de sentir o próprio mundo.

de sentir-se mundo.

de ser-se mundo.

– imagem, som e matéria reunidos sob a forma da alucinação.


3. queremos ser livres como crianças a brincar

um filme que se podia chamar: queremos ser crianças a brincar, queremos ser crianças a brincar no mar.

porque as crianças têm todo o tempo do mundo, têm todo o tempo do mundo para aprender a amar.

este é um filme livre como são livres as crianças a alucinar.

Play5

sons por Margarida Albino e Ricardo Guerreiro




criação, captações e sonoplastia MARGARIDA ALBINO com CAMILLA FLORA PREY com a ajuda de ANA ALMEIDA, STEPHANIE KYEK e JULIA NOGUEIRA sons sintéticos RICARDO GUERREIRO montagem MARGARIDA ALBINO assistente de montagem MIGUEL TAVARES revelação CAMILA VALE e MARGARIDA ALBINO, LABORATÓRIO ESPIRAL digitalização LAURENT SIMÕES produção AR.CO distribuição TERRATREME