NOVOCINE
ENG

09

JARDIM 2007, PT, 70 min


um filme de João Vladimiro

Sim, sei que as árvores não têm olhos, a água não tem boca e as pedras não têm ouvidos.
Ainda assim, comunicamos. Neste jardim em especial, acontecem longas conversas caladas, como dois velhos conhecidos que, pela simples presença, se falam de calma, conforto, tristeza. Aqui, assisti aos primeiros passos de uma criança, à chegada de um pato mudo, à queda das folhas de um choupo branco.



Texto por João Vladimiro, 2007

Este filme nasce de uma encomenda feita pela Fundação Calouste Gulbenkian para realizar um documentário sobre o Arq.º Ribeiro Telles e os Jardins da Fundação.

Mal comecei a pensar nele, a ideia das estações do ano e da sua variação neste microcosmos toma uma dimensão fulcral no projecto. Tentar captar a ondulação do tempo foi, a partir desse momento, uma ideia basilar do filme. Tracei então um plano de rodagem bastante livre mas onde tentava registar os picos das estações e a sua transição. Assustava-me a ideia de abordar a personalidade e o trabalho do Prof. Ribeiro Telles através de uma entrevista e/ou documentário biográfico.

Quando aceitei o convite, tive também de apresentar uma equipa e um orçamento para o projecto. Durante o processo de rodagem, a pessoa mais próxima foi o engenheiro de som, pois acompanhou as nossas dúvidas, os nossos erros, os nossos problemas. Por isso, escolhi para a captação de som a pessoa com quem mais tinha trabalhado no projecto anterior (Pé na Terra, 2006) pelas suas qualidades de envolvência e discussão de ideias. Senti que esta foi das decisões mais importantes para o decorrer do filme pois assegurei que uma pessoa exterior não me deixaria cair na preguiça mental, no facilitismo — ou no derrotismo que lhe opõe— em que tão facilmente caímos quando estamos sozinhos.

Foi, por exemplo, depois de um dia de rodagem logo no primeiro mês, que o Tiago (Engº de Som) me pede que lhe explique por texto “o que andamos para aqui a fazer”. Fui para casa pensar e no dia seguinte trazia o texto de onde saiu a sinopse do filme:

“Sim, sei que as árvores não têm olhos, a água não tem boca e as pedras não têm ouvidos. Ainda assim comunicamos. Especialmente aqui, neste Jardim, tenho longas conversas caladas, como dois velhos conhecidos que pela simples presença se falam de calma, de sabedoria, de quietude ou de raiva, de tempestade, de conforto, de tristeza. Sei que também tu aqui vens para te ligares ao teu corpo, ao teu passado, ao teu próximo. Aqui, respira-se uma intimidade partilhada entre pessoas, animais e plantas. Aqui assisti aos primeiros passos de um bebé, à chegada de um pato mudo, à queda das folhas do grande choupo branco.”

Voltando atrás.

Antes de pegar na câmara, fiz algum trabalho de campo — não tanto como devia pois caí no erro de achar que conhecia bem o Jardim por nele ter passado grande parte do meu tempo nos 5 meses anteriores à rodagem — onde, para além de procurar estar atento a tudo (o que pode ser um erro de falta de ponto de vista), tentava conhecer melhor as espécies de flora, fauna e pessoas que nele habitavam. Recolhi muitas folhas e flores para um caderno, apontando nomes e a sua sazonalidade. Tracei um mapa com os pontos de actividade animal: os ninhos, os charcos, o recanto dos namorados, o local de brincadeiras dos mais novos, o sítio onde os bebés dão os primeiros passos na vida, que por curiosidade é próximo do local onde os mais velhos repousam, com certeza alegrando-se da jovialidade que os rodeia. Neste mapa, desenhei também os pontos mais interessantes para captar a relação entre edifícios e Jardim. Quais as janelas, os pontos de fuga, os reflexos que me fascinavam. Sem me dar conta, fui descobrindo possíveis relações destes pontos com certas obras do museu - tapeçarias, biombos, quadros ou esculturas. Esta relação interessava-me no sentido de aproximar a fruição que se tem com o Jardim e com as peças de arte de um museu.

Fui-me apresentando aos jardineiros pois rapidamente me apercebi que seriam um forte elo de ligação humana neste jardim. Para além da surpresa de um mundo invisível aos olhos do transeunte ocasional, fascinou-me um lado humano de certas personagens. Podemos, com uma observação cuidada, reparar que estes homens e mulheres têm um trato diferente com o mundo que os envolve, em parte por cuidarem da vida, muitas vezes frágil do Jardim, e obviamente, pelos seus percursos de vida particulares.

Travei também um conhecimento mais forte com os habitués do Jardim:

A senhora já viúva que todos os dias passa a tarde sentada a conversar com as “outras” que, como ela, já não têm ninguém muito próximo com quem falar, o Sr. que teve uma trombose e vem ver o jogo de cartas entre os reformados, o homem que vem fazer as palavras cruzadas entre uma garrafa de cerveja, junto ao ribeiro que lhe lembra a terra natal onde brincava ao ar livre entre prados e ribeiros, o velho sábio incompreendido que debitava de cor poesia, o “indigente” que entre o concerto ao ar livre onde todos se aperaltaram para ir, passeava com a beata ao canto da boca e walkman nos ouvidos. Bem, uma vasta panóplia de pessoas frequentam este jardim (não referi a classe economicamente mais alta apenas porque estes não me interessam tanto à partida, mas obviamente o jardim está cheio de gente como nós) e que nos podem contar alguma coisa pelos seus gestos, experiências, costumes e bizarrias.

Tratei também de perceber quais as actividades que se iriam realizar no Jardim. Concertos, espectáculos, visitas… Filmei algumas, como o Jazz em Agosto, ou os concertos de música clássica no anfiteatro, mas havia sempre o problema de não chegar perto das pessoas de modo a poder desenvolver uma mini-história que pudesse servir o filme. Por esta razão, ganhei um especial interesse nas actividades que o sector educativo do C.A.M. realiza na primavera e verão. Fiquei especialmente curioso pela forma como estas actividades integravam o Jardim, a perspectiva que dele davam e o facto de poder ter com os seus responsáveis uma cumplicidade que permitia direccionar um pouco estas actividades para o rumo que o filme já tinha tomado (visto que comecei o filme no verão e só programei estas filmagens para a primavera), para além de terem uma duração que permitia algum desenvolvimento com as pessoas.

Outra curiosidade minha em relação a este espaço era o seu comportamento nocturno, quando se fecham as portas ao público e restam os seus habitantes. Como se comporta e que qualidades toma este espaço no silêncio da noite?

Fiz uma visita guiada pelo edifício à noite onde acedi a magníficas vidraças sobre jardins suspensos, lagos reflectindo a lua. Terraços onde vi a copa das árvores que com o vento calavam a sinfonia de sapos e rãs, estátuas que ganhavam uma vida escondida, sonolenta e triste. Tinha a liberdade, tempo e calma para um diálogo diferente do praticado durante o dia, onde a agitação da cidade se sente com outra intensidade.

Desta visita ao edifício surgiu-me outra curiosidade. Como trabalham os jardineiros nestas varandas e nestes terraços? Que relação têm eles com os trabalhadores nos escritórios? Foi extremamente interessante a réperage deste momento. Escolhi um dia em que os jardineiros iam trabalhar nas varandas e acompanhei-os, de escritório em escritório, à procura de situações de confronto, de extremos ou semelhanças, ou apenas de indiferença entre interior e exterior, entre o trabalho com os computadores e o trabalho com as plantas.

Coleccionei portanto uma série de curiosidades que tentei enquadrar numa estação específica (p. ex. os trabalhos dos jardineiros nas varandas no fim do Outono, as actividades do sector educativo na Primavera, a vida humana do Jardim no Verão, o edifício durante todas as estações...) e que decidi saciar através da filmagem.

Tinha agora de me concentrar no ponto de vista da câmara. O que é ela aqui no meio? Devo dizer que esta foi a maior luta em todo o filme, sendo que nunca fixei um só ponto de vista. Fui fantasma, fui pato, fui espectador, fui sapo, bicho da conta, estátua, árvore, flor. Enfim, tudo aquilo que é vivo por natureza ou imaginação. Deixo-vos um exemplo deste processo:

Comecei a rodagem a filmar o Jazz em Agosto do ponto de vista do fantasma do Sr. Gulbenkian e de um pato. Se no caso do Sr. Gulbenkian, a via era comportar-me como um humano mas sem ser notado, tomar pontos de vista no meio da vegetação, andar por zonas interditas à generalidade da audiência, etc., no caso do pato foi um pouco mais complicado.

Experimentámos, numa tarde, colocar a câmara a boiar numa jangada improvisada feita de bidons de água e esferovite, que capturaria a visão de um pato que calmamente se passeava pelo lago e de repente se deparava com um anfiteatro repleto de luzes, gente e uma sonoridade estranha. Nesta filmagem, efectuada na altura em que se fazia os testes de som no palco, apercebemo-nos que à noite, em pleno espectáculo, ver dois tipos no meio do lago de galochas e com um objecto estranho a boiar à frente seria no mínimo, uma grande barraca. No fim de contas ficámos com o plano captado à tarde, que agora faz parte do filme, o que faz muito sentido porque apesar de ser uma ideia estapafúrdia, foi filmado com uma intenção bastante clara. Olhar o Jardim de uma nova perspectiva. Aprendi que as ideias, por mais estúpidas que possam parecer são para ser experimentadas e não para ficarem na cabeça a ganhar teias de suposições.



Se a coisa corria bem com o trabalho de campo no Jardim, o mesmo não se podia dizer das aproximações ao Prof. Ribeiro Telles. O Sr., de forte carácter teimava em fugir-me à “simpatia” deste projecto. Fui-me apercebendo que seria impossível ganhar a confiança necessária para filmá-lo à vontade numa outra situação que não fosse em trabalho. Se, a princípio, esta ideia me desconcertou, à medida que ia fazendo alguma investigação paralela, apercebi-me que, em entrevistas que ele tinha anteriormente dado, a conversa era sempre a mesma, completamente controlada por ele — pois nas matérias em que ele discorria não havia entrevistador que pudesse estar ao seu nível—. Melhor assim, pensei. Vou filmá-lo em plena actividade, coisa que não se via em nenhuma outra entrevista. Lembrei-me que em certos documentários sobre personalidades interessantes, uma das maneiras mais fortes de conhecimento sobre a personagem é vê-la em plena actividade, intelectual ou manual (ou a junção das duas). Parti para esta abordagem. Com a colaboração do Arq. Paisagista João Mateus, que o assistia nos trabalhos de reformulação do Jardim, fui sabendo onde se fariam as próximas aparições do Professor. No Jardim, no atelier, numa visita guiada, numa reunião… Aparecia sem avisar ninguém de modo a não permitir escudos ou esquivas. Desta forma, integrei-me como mais um trabalhador (se bem que não servisse para grande coisa) no meio do Jardim, podendo circular à vontade entre os trabalhos que se iam realizando.

Houve portanto, uma série de ideias de filmagem pré-concebidas ou de situações a despoletar ,as deixei na cabeça muito espaço para encher com elementos exteriores ao cinema, ao Jardim, ao filme que procurava criar, de modo a criar imaginários que o pudessem suportar. Aqui, refugiei-me nos livros. Especificamente na poesia, contos e haikus. Foram estas leituras que em muito me permitiram ver o Jardim com o corpo e através dele chegar à cabeça, aos olhos e à mão que agarra a câmara.

Deixo um exemplo de cada autor que mais li.  Falta o espaço para o conto “O Rouxinol e a Rosa” de Oscar Wilde e para “A Fala do Índio”, de Teri C. McLuhan (recolha de textos dos Índios da América do Norte).


Canto Vigésimo Segundo

Quando no Outono
As árvores estavam nuas
Uma tarde a nuvem de pássaros
Exaustos
Poisou sobre os ramos.
Pareciam ter regressado as folhas
Baloiçando ao vento.

Tonino Guerra in “O Mel”



XLVII

Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma Estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.

A Natureza é partes sem um todo.
Isso é talvez o mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Aceitei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.


Alberto Caeeiro in “O Guardador de Rebanhos”



O Fim é agora mesmo, o começar de uma nova vida

Hôgen Yamahata in “Folhas caem, um novo rebento”



realização, imagem e produção JOÃO VLADIMIRO som TIAGO HESPANHA montagem MIGUEL COELHO com a colaboração CLAUDIO MARTINEZ, DOMINIQUE PÂRIS, ATELIERS VARAN montagem e mistura de som NUNO MOURÃO cor LIGHTBOX tradução ANA CARVALHOSA design gráfico JOÃO VLADIMIRO